sexta-feira, junho 19, 2026
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Câmara promove debate sobre impactos das apostas online na saúde mental


Os impactos das apostas online na saúde mental e os desafios para a prevenção do vício em jogos foram debatidos na manhã desta sexta-feira, 19, durante a roda de conversa “Além da aposta: saúde mental em jogo”, realizada pelo Centro de Promoção à Saúde do Servidor (CPSS) da Câmara de Fortaleza. O evento reuniu o psiquiatra Gabriel Fontenele, o neuropsicólogo Artur Menezes e o empresário André Rolim, que compartilharam experiências e reflexões sobre o assunto.

O psiquiatra Gabriel Fontenele explicou que o mecanismo de dependência associado às apostas esportivas apresenta características diferentes de outros tipos de vício. Segundo ele, o principal estímulo não está necessariamente na vitória, mas na expectativa pelo resultado. “O cérebro libera dopamina principalmente na antecipação da recompensa. Ou seja, não é a vitória, não é ganhar que gera essa recompensa ao cérebro, é a incerteza sobre o resultado. Por isso que quem perde também se vicia, não só quem ganha”, destacou.

O neuropsicólogo Artur Menezes explica que traços como impulsividade e baixa regulação emocional podem aumentar a vulnerabilidade ao comportamento compulsivo. Ele observa ainda que o funcionamento das plataformas contribui para manter o usuário engajado, ao operar com recompensas imprevisíveis que estimulam a repetição mesmo após perdas.

Segundo Gabriel, essa particularidade torna o tratamento da adicção em apostas mais desafiador. Ele citou ainda estudos internacionais recentes que apontam a crescente disseminação das apostas, inclusive devido ao marketing. Uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica The Lancet indicou que quase metade dos adultos entrevistados já teve contato com apostas em algum momento da vida, enquanto cerca de 8% apresentavam risco de desenvolver dependência.

“A gente vê marketing o tempo todo, propaganda durante a Copa a todo momento. Então, há uma enxurrada de publicidade sobre isso, e eu não sei até que ponto a saúde pública vai conseguir sustentar o que está acontecendo. Estamos vendo muitos pacientes chegarem ao consultório com esse tipo de vício, que gera inúmeros problemas. Inclusive, a taxa de suicídio entre pessoas viciadas em apostas é cinco vezes maior do que na população em geral”, alertou.

Fontenele também chamou atenção para os impactos sociais e emocionais relacionados ao problema. Segundo ele, embora as apostas sejam mais frequentes entre homens jovens e estudantes universitários, os casos mais graves costumam atingir pessoas em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica. “O que a gente vê é que na Bets existem mais homens, jovens, geralmente com maior poder aquisitivo e um dado interessante é que a maioria são alunos de faculdade. Agora, quando você pega a população que tem um comportamento adictivo, a gente analisa esses pacientes, os mais graves, eles são os que tem menor poder aquisitivo, são a população mais vulnerável socialmente, Então isso é um dado que é muito importante, até como mecanismo de saúde pública”. disse.

Como identificar os sinais?

O psiquiatra Gabriel Fontenele alertou que alguns sinais podem indicar o desenvolvimento da dependência em apostas, como o aumento progressivo dos valores apostados, a ansiedade e a irritabilidade quando a pessoa não está jogando, além da necessidade de esconder o comportamento por meio de mentiras.

Segundo ele, o vício também pode provocar mudanças nas relações sociais, endividamento e estar associado a transtornos como ansiedade e depressão. O especialista destacou ainda que pessoas com condições como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), marcado pela impulsividade na vida adulta, podem apresentar maior vulnerabilidade ao desenvolvimento desse tipo de dependência.

Na mesma linha, o neuropsicólogo Artur Menezes destaca que o vício em apostas está relacionado a um padrão de compulsão associado à impulsividade e à dificuldade de lidar com emoções negativas, como tristeza, ansiedade e estresse. Segundo ele, essas características podem estar presentes antes mesmo do início do comportamento de risco e ajudam a identificar a vulnerabilidade do indivíduo.

“Há pessoas que apresentam traços de personalidade mais impulsivos e uma tendência maior a experimentar sentimentos negativos, além de uma dificuldade mais acentuada para lidar com o estresse. Esses são aspectos da vida emocional e da própria personalidade que, quando não trabalhados, podem influenciar diferentes áreas do comportamento, não apenas os jogos de apostas, mas diversas escolhas ao longo da vida e reforçar padrões impulsivos no indivíduo.”

Segundo Artur, a diferença entre o lazer e o problema clínico nas apostas está no momento em que o comportamento deixa de ser recreativo e passa a se tornar uma obsessão, uma compulsão e um vício. “É quando a pessoa começa a apostar de forma repetida, já com prejuízos financeiros, escondendo da família, recorrendo a cartões de crédito ou dinheiro de terceiros, muitas vezes sem autorização. Isso vai, ao longo do tempo, aumentando os níveis de estresse, ansiedade e podendo evoluir para quadros de depressão e até ideação suicida. Além disso, há um impacto importante nos relacionamentos, porque essa pessoa tende ao isolamento, se afasta socialmente e, por já apresentar maior sensibilidade emocional, pode reagir com mais irritabilidade, maior dificuldade de regulação emocional e conflitos frequentes no convívio diário.”

Os especialistas reforçam que reconhecer precocemente esses sinais é fundamental para interromper o ciclo e buscar apoio adequado.

O relato sobre o impacto das apostas

O empresário André Rolim participou da roda de conversa compartilhando sua experiência pessoal. Segundo ele, o vício comprometeu sua vida financeira, profissional e familiar ao longo de duas décadas. Há cinco anos longe das apostas, André passou a atuar na conscientização sobre os riscos da prática, levando seu testemunho para alertar outras pessoas e famílias. Durante o encontro, ele ressaltou a importância de identificar sinais precoces de dependência, como isolamento social, irritabilidade e mudanças de comportamento, defendendo que o acolhimento e a escuta são fundamentais para quem enfrenta o problema.

“Eu passei 20 anos achando que era um lazer, que era uma renda extra. Mas, depois de perder casa, carro, emprego e praticamente todo o meu patrimônio, decidi dar um basta há cinco anos. Desde então, transformei essa experiência em um alerta para ajudar outras pessoas. Muita gente ainda não conhece a dimensão dos riscos das bets, por isso compartilho minha história. É importante entender que quem enfrenta esse problema muitas vezes precisa apenas ser ouvido, não julgado. Quando falamos sobre apostas, não estamos tratando apenas de dinheiro, mas de vidas. Precisamos enxergar esse fenômeno como uma questão séria, que representa um risco real para a saúde e para a sociedade”, alertou.

Debate

Para a professora de Enfermagem do Grau Técnico, Roberta Mota, o evento reforça a necessidade de ampliar o debate entre estudantes e profissionais da área da saúde. Ela ressaltou que o cuidado deve contemplar não apenas o aspecto físico, mas também o emocional. “Saúde não é apenas a ausência de doença, é o bem-estar físico, mental e social. Como trabalhamos com o cuidado, precisamos olhar também para a saúde mental, especialmente dos profissionais da enfermagem, que enfrentam muitos desafios no dia a dia”, destacou.

A estudante de Enfermagem do Grau Técnico, Jamire Lima, destacou que o momento contribuiu para a formação dos futuros profissionais de saúde, especialmente no acolhimento de pessoas em sofrimento emocional. Segundo ela, o contato diário com pacientes durante o seu estágio evidencia a necessidade de compreender melhor questões relacionadas à saúde mental. “Nem sempre o paciente chega bem e nem sempre nós também estamos bem para receber. Participar desse momento nos ajuda a entender como acolher, se comunicar e apoiar quem está passando por um momento de dificuldade. E agora com as casas de apostas em alta, conheço muitas pessoas que estão passando por crise de ansiedade, depressão e é importante para a gente entender como ajudar”, afirmou.

Assista na íntegra a roda de conversa “Além da aposta: saúde mental em jogo”:

Fotos: Luciano Melo



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