sábado, maio 9, 2026
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Os desafios da maternidade e o papel da escuta, do acolhimento e da rede de apoio


Os desafios da maternidade e o papel da escuta, do acolhimento e da rede de apoio

Alegria, realização, ansiedade e medo são alguns dos sentimentos que podem envolver a chegada de um filho e a transformação de uma mulher em mãe. Esse universo se amplia quando a rotina materna vem atrelada à carreira profissional e à descoberta de uma necessidade de atenção especial para o desenvolvimento da criança.

Cenário, que na maternidade, coloca em destaque a rede de apoio familiar e institucional. No Espaço Evoluir, a escuta e o acolhimento têm ganhado corpo com o grupo “Cuidar de quem cuida”, que, por meio de dinâmicas temáticas e de relatos, tem construído um momento de troca entre as mães, em que cada uma traz as suas peças do quebra-cabeça e todas constroem juntas as suas histórias.

A coordenadora do Espaço Evoluir, Cinthya Viana, reforça a importância do cuidar da família. “Um grupo que trabalha a escuta terapêutica, realizada por um psicólogo, no qual nós acolhemos, fazemos as intervenções necessárias e as orientações para que essas famílias possam ser cada vez assistidas por nós. Cuidar é um desafio diário, é algo que vai além de uma prática profissional”, destaca a gestora.

Para Karine Rocha, de 32 anos, a maternidade chegou de surpresa. O primeiro filho chegou aos 21 anos e o papel de mãe veio junto com os estudos e o trabalho. O segundo filho, Pedro, hoje com 7 anos de idade, trouxe uma nova dinâmica, despertando a família para uma rotina atípica.

Com dificuldades na fala, na comunicação e uma forte rigidez em relação a mudanças de rotina, Pedro está em processo de diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH. A chegada ao Espaço Evoluir foi o divisor de águas para Karine, que destaca o aprendizado sobre o funcionamento de Pedro e como a troca de experiências com outras mães tem fortalecido a sua caminhada.

“Quando temos esse momento no grupo, a gente vai se conhecendo. As mães, juntamente com os profissionais, vão dialogando com a gente. A gente vai podendo partilhar as conquistas e também ver os outros lados, como as outras mães enfrentam uma crise. E, no grupo, podemos vivenciar as experiência de outras mães e dizer: – eu também passei por isso. Aqui é, também, um momento de desabafo, porque, às vezes, a gente também fica tão sufocada da rotina”, relata Karine.

Segundo a assistente social do Espaço Evoluir, Tamiris Sousa, esse acolhimento é fundamental no fortalecimento de vínculos. “É através do acolhimento, da escuta, que é possível identificar e validar os sentimentos dessa família, ajudando a família a se situar diante do próprio diagnóstico das crianças e também diante das dificuldades do dia a dia. Isso ajuda a reduzir um pouco da insegurança e a sensação de desamparo, sentimentos comuns entre famílias com crianças com algum tipo de transtorno do neurodesenvolvimento”, explica.

O medo do futuro

Em temática trabalhada no grupo de mães do Espaço, a psicóloga Jaqueline Maia abordou o sentimento da mulher ao se deparar com um diagnóstico de TEA ou síndrome de Down. Segundo ela, a preocupação com o futuro dos filhos é algo recorrente, assim como a centralização do cuidado.

A maternidade atípica veio para Camila Araújo com um pacote de perguntas, principalmente sobre como a sociedade iria receber o seu filho. Otto tem 4 anos e foi uma criança muito esperada, mas desde o início da vida a mãe já identificava sinais de um desenvolvimento diferente, percepção que fez Camila assumir as suas fragilidades.

“Eu olhava muito para essa luta dessas mães atípicas e dizia: ‘eu não tenho capacidade’. É estranho, viu? Porque eu tinha um olhar de medo. De não saber lidar, de ver meu filho sofrer. Não era um olhar de preconceito, era sobre a sensação de ser incapaz mesmo. Hoje, eu sou totalmente capaz. Faço tudo pelo meu filho, para que ele tenha a sua infância. Eu aprendi a resiliência”, revela Camila.

O choro é livre

“No grupo, eu recebo empatia e consolo. Mas um consolo que não é de pena, é de apoio. É sobre a pessoa se colocar no lugar da gente sem julgar. Lá, eu pude falar do meu medo e não fui julgada. Como a gente diz: no grupo, o choro é livre. Você pode chorar sem que as pessoas sintam pena de você”, desabafa Camila.

Sentimento que também é compartilhado por Airla Lacerda, mãe de Moara, em processo de diagnóstico de TEA no Espaço Evoluir. A percepção de que a filha era “diferente” veio através da comparação com crianças do seu círculo de amizade e o apoio tem sido um diferencial na busca por respostas.

“Nesse processo de descoberta, vejo o acolhimento e a evolução dela aqui. E a gente está aí nesse processo de encaixar esses quebra-cabeças. E tem horas que a gente encaixa bem direitinho, mas tem momentos que tem peças que não se encaixam. E aí temos esse momento de troca de vivências, escutando o que uma mãe vive e o que você também já passou. O grupo, ele traz esse processo de escuta com empatia”, reforça Airla.

Tamiris Sousa ressalta que o grupo foi pensado justamente para oferecer suporte diante dessa carga maior. “A maternidade é algo incrível, mas temos que ver o outro lado, o peso invisível que faz parte da rotina”. O grupo foi pensado para oferecer um apoio a mais para essas famílias, pensamos inclusive na logística: o horário do grupo coincide com o atendimento das crianças, pois muitas famílias não têm rede de apoio ou com quem deixar a criança.

E nesse cuidado reconhecer a necessidade de ajuda também faz parte do processo, como reforça a psicóloga Jaqueline. “Temos uma resistência, seja pelo sentimento de responsabilidade sobre a maternidade, pela ideia de que ninguém vai cuidar igual a mim, mas costumo dar um exemplo da água na borda da piscina. É preciso que a água esteja pelo menos na altura do pescoço para termos um respiro”, ressalta.

Em meio aos relatos, a emoção está sempre presente nas falas. Na roda de conversa todas estão atentas ao que cada uma vivencia no dia a dia, como lidam com o preconceito ou com os momentos de desregulação dos filhos e que a ajuda do Espaço Evoluir tem sido algo “indispensável” para continuarem a sua jornada na maternidade.

Foto: Érika Fonseca / Luciano Melo



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