terça-feira, março 17, 2026
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Tradição e fé impulsionam busca por banhos e ervas no fim de ano

Tradição e fé impulsionam busca por banhos e ervas no fim de ano

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Aroma e conhecimento popular se mesclam em banquinhas de ervas espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro, em feiras livres ou nas esquinas, da zona norte à zona sul. Nesses pontos de venda, saberes passados de geração em geração receitam chás, xaropes, escaldapés, banhos e outras preparações. Mesmo sem comprovação medicinal para curar doenças, as preparaçõespromovem o bem-estar e,por isso, no fim de ano, cresce a procura por folhas para banhos energéticos e rituais.

Em um ponto da Rua da Carioca, no Centro, o erveiro José Adaílton de Souza Ferreiraborrifa suas plantas, de tempos em tempos, para protegê-las do calor. Empilhadas em um carrinho de mãoestilo “burro sem rabo”, estão ramos de macassá, levante, manjericão, arruda, alfazema, alecrim e sálvia, “as mais procuradas para banhos energizantes ou de ‘descarrego’, contra inveja e olho grande”, prescreve.

“Tem tanta gente que chega carregado aqui, toma um banho de abre-caminho, desata nó, vence demanda, e a pessoa melhora muito”, conta o erveiro, que dá instruções simples: “Cozinhar ou esfregar, um dos dois, e depois jogar da cabeça aos pés”.

As folhas ainda são procuradas para cuidados de saúde, caso do saião, guaco e assa-peixe, usadas para incrementar xaropes caseiros, mas a maior demanda dos erveiros é para o uso em banhos energéticos ou rituais.

As religiões indígenas e de matriz africanautilizam as plantas nas celebrações. No candomblé, por exemplo, as folhas, chamadasewés, carregam o axé, a força vital que conecta o mundo espiritual ao mundo real, sendo cada espécie usada para uma finalidade, como oferendas, banhos e curas. Nesta religião, as ervas purificam, equilibram e reenergizam.

A Mãe Nilce de Iansã, referência do terreiro Ilê Omolu Oxum, na Baixada Fluminense explica:“Kò si ewé, kò si Orixá [ditado iorubá], ou seja, sem folha não tem orixá, porque o orixá é a natureza”.

Em um terreiro, ela relata que as folhas são para uso religioso, terapêutico e alimentar. “Muitas pessoas chegam até nós sem saber o que fazer, tomam um banho de nossas ervas, bebem um cháe se sentem aliviadas”.

Coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras, ela lembra queuma das bandeiras da entidadeé o reconhecimento das ações terapêuticas nos terreiros como práticas de saúde. “Não estou falando de cura, mas de cuidado”, frisou.

No caso dos banhos, Mãe Nilce avisa que a prescrição varia de acordo com cada pessoa e a intenção de cada tratamento.Para dar conta dessas especificidades, “ialorixás [sacerdotes mulheres] e babalorixás [homens] estudam, se preparam e são guardiões de conhecimento ancestral”, explica.

Por isso, ela diz que não há uma receita universal, que sirva para qualquer pessoa. Mesmo assim, Nilcedá uma dica alternativa que pode fazer bem a qualquer um no fim de ano:

“Tome um banho de mar.Que delícia!Tome banho de rio e de cachoeira. É energia pura”.

Apesar das dúvidas sobre a eficácia da fitoterapia na cura de doenças, a ciência já atestou que práticas religiosas/rituais podem ser benéficas para a saúde, é o que lembra Aline Saavedra, doutora em biologia vegetal e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

“Não existe uma pesquisa para saber se, de fato, aquele banho vai te dar mais energia ou te trazer, proteção”, diz.“Porém, em relação ao bem estar, o fato de as pessoas se sentirem mais protegidas, obviamente, muda a química do nosso cérebro positivamente, e isso traz benefícios”, afirma.

No caso de ingestão, Aline recomenda cuidado.

Fonte: Agência Brasil – EBC

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