De dentro do mar, na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, a vista pode ser para o Pão de Açúcar, para o Cristo Redentor ou para dentro de si mesma.
“Quando a gente está no mundo, o mundo engole a gente com as microviolências cotidianas.Agente não tem espaço ou tempo para pensar em nós, em quem nós somos”, afirma a estudante de história Maya Alves, de 22 anos.
“Então, quando a gente vai para o mar, ali, em contato com a natureza, esse resgate é feito”, explicou ela, que, de aluna assídua, acabou se tornando a vice-presidenta do Projeto Aquatrans.
O Aquatransoferece aulas de natação em águas abertas para pessoastrans, travestis e não-binárias a preços populares.
O projetosurgiu em 2024, pelas mãos do educador físico Marcelo Silva, homemtrans, para criar um ambiente seguro para esse público fazeratividade física ao ar livre e também com a intenção de ressignificar espaços da cidade.
Atualmente, participam cerca de 120 pessoas, em três níveis: iniciante, intermediário e avançado. Com bom humor, o grupo apelidou as turmasdeanêmonas, água-vivas e golfinhos. Em 2026, novas turmas, aos finais de semana, estão com inscrições abertas para quem quiser desfrutar da prática em coletivo.
Por terem corpos considerados diferentes do padrão, muitas pessoasnão se sentem bem com roupas de banho ou curtas. Há relatos de olhares de desprezo, gestos de discriminação e agressões contra esse grupo. Maya conta que, para uma pessoa trans, a experiência de ir a praia muda com a transição de gênero.
“Antes datransição, a praia era um território comum para muitos de nós. Depois, esse lugar se torna hostil”, explica avice-presidenta do projeto.
Tudo isso se tornamais díficil para quem passa pela disforia, que é um desconforto ou angústia causados pela incompatibilidade entre ogênero e o corpo ao nascer, uma das causas de sofrimento psíquico de muitas pessoastrans.
Em uma cidade de clima quente, como o Rio de Janeiro, sem poder usar roupas mais abertas ou tirar a blusa, homenstransque usam
(faixas para comprimir e esconder o peito) acabam evitando a prática de atividade física em espaços públicos.
Esse é o caso de muitos garotostransque chegam aoTransmaromba. Bem perto do Aquatrans, um grupo se reúne para fazer musculação em uma academia improvisada com estrutura rústica. Ao ar livre, entre um supino e outro com vista para a paisagem, eles revezam os equipamentos de cimento e ferro, da mesma forma que compartilham conquistas e desafios.
“Queremos empoderartransmasculinos por meio da atividade física e promoção de saúde mental”, explicou Kayodê Andrade, um dos idealizadores doTransmaromba, em vídeo publicado na rede social da iniciativa. Ele disse que
a partir da criação de espaços seguros para pessoastrans, o projeto busca construir uma comunidade inclusiva e acolhedora.
Pessoas com identidade de gênero diferente do sexo ao nascer há anos lutam por saúde, segurança e respeito, mas nem sempre têm acesso por causa do preconceito. Por isso, para esses grupos, treinar junto, significa acolhimento e bem-estar.
Fonte: Agência Brasil – EBC