quarta-feira, junho 24, 2026
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Acervo da USP revela novas faces do pensador negro Milton Santos

Vinte e cinco anos após a morte de Milton Santos, completados nesta quarta-feira (24), seu legado está sendo reescrito a partir de um labirinto de papéis guardados na Universidade de São Paulo (USP).

Pesquisas recentes no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde está depositado o acervo de Santos com cerca de 60 mil itens, têm trazido à tona faces pouco conhecidas do pensador.

Depois da implementação das cotas raciais nas universidades, uma nova geração de estudantes passou a exigir uma reformulação nas pesquisas sobre a participação dos intelectuais negros na formação do pensamento brasileiro.

A análise é do professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e pesquisador de Milton Santos, Maurício Costa.

“A conquista das cotas raciais nas universidades públicas do Brasil permitiu não só o acesso a mais pessoas negras à universidade, mas fundamentalmente um processo de reformulação do conhecimento. De olhar para o conhecimento e dizer: onde estão os autores negros aqui?”, aponta

Esse movimento tem impactado os novos estudos sobre Milton Santos, que agora estão indo além dos temas acadêmicos tradicionalmente relacionados a ele, como a reformulação da geografia e a globalização. Os estudos passaram a investigar também a relação do pensador com a área política, o movimento negro, as periferias, e o período em que esteve nos países africanos.

“Ele escreveu, por exemplo, sobre o continente africano,no momento onde tinha pouquíssima gente no Brasil falando sobre esse tema. Especialmenteescrevendo sobre a África, tendo visitado o continente. Esses são aspectos que não estão tratados [até agora] na vida e na obra do professor”, diz.

Maurício Costa aponta que Milton Santos foi um dos primeiros pensadores brasileiros a ler e falar sobre a obra de Frantz Fanon, referência de muitos movimentos negros, e de escrever sobre questões raciais logo em seus primeiros livros.

“Ele foi talvez um dos primeiros autores brasileiros que leu a obra do Fanon, que tem sido muito resgatada recentemente, mas que tinha sido pouco lida. Inclusive por conta de questões raciais que atravessavam as estruturas, as instituições do Brasil. E ele falou sobre isso em diversos momentos da vida dele. O primeiro livro dele,

, é um livro que aborda questões raciais”, ressalta.

O pesquisador cita ainda outro livro escrito por Santos, a partir das viagens que ele fez para a África, na década de 50. Chamado

, é um relato de viagem a partir de artigos que ele escreveu para jornais à época, que também abordam questões raciais.

Autor de pesquisa em desenvolvimentosobre a centralidade da periferia no pensamento de Milton Santos, Maurício Costa destaca ainda que, após voltar do exílio, nos anos 1970, Milton Santos passou a ter uma atuação mais política.

“Explicitamente, o livro Espaço do Cidadão é uma obra que ele organiza para intervir no debate da Constituição de 1988. É um livro que é feito também por essa chave, para dizer o seguinte: onde é que está a questão do território na elaboração política que nós estamos fazendo?”.

Para o professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), Sérgio Henrique de Oliveira as novas pesquisas nos materiais do acervo de Milton Santos desmontam um mito de que o pensador nunca foi militante do movimento negro.

Fonte: Agência Brasil – EBC

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