“Nos apartamentos e nas casas brasileiras os quartinhos de empregada estão sempre na área de serviço, bem perto do tanque, bem perto da cozinha, e são espaços geralmente menores.”
É assim que a cineasta paulistana Karol Maia descreve sua percepção sobre como se desenvolveu a arquitetura das casas brasileiras ao longo dos anos, olhando a partir das dependências de empregadas domésticas.
Esta segregação de espaços é o tema de seu longa-metragem de estreia:
.O filme, que entrou em cartaz na última terça-feira (7),
conta a história de cinco mulheres que trabalham ou trabalharam como empregadas domésticas em diferentes estados do país.
Uma das personagens é Miriam Mendes, mãe de Karol Maia, que também assina o roteiro e a direção do longa.
As experiências pessoais da cineasta acompanhando a mãe no trabalho durante a infância são a base do projeto.
“Minha mãe não me levava por necessidade, ela me levava porque queria ficar perto de mim. Enfim, ela me amava e queria me ter por perto mesmo tendo um pai que fazia esse trabalho tão bem quanto ela. Então essa motivação não partia de uma necessidade onde eu ficaria sozinha e vulnerável. Era um apego materno”.
O pai de Karol Maia era professor de música e dava aulas em casa, na periferia de São Paulo, enquanto a mãe trabalhava fora, tanto para famílias de bairros nobres da cidade, quanto em residências próximas da zona leste, onde viviam.
Para a diretora, isso revela outro aspecto sobre como o Brasil lida economicamente com essa profissão.
“Até as pessoas pobres ou de classe média baixa no Brasil contratam trabalhadoras domésticas. Isso faz a gente avaliar como o trabalho doméstico no Brasil é mal remunerado, né? Porque se uma pessoa que ganha mal está pagando para alguém trabalhar pra ela, então você também está pagando mal essa pessoa”, completou.
De Minas Gerais, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, conhecida como Rosarinha, é uma das mulheres que compartilha sua trajetória no documentário. Com promessas de trabalho e estudo, ela foi levada para uma cidade perto do interior onde nasceu. Mas o acordo nunca foi cumprido.
“As famílias eram muito pobres. E eu até costumo dizer que eu não entendo porque a gente, que é pobre, tem um tanto de filho. Parece que filho era investimento, sabe? Então a gente tinha que começar a trabalhar cedo pra ajudar a cuidar dos irmãos “, conta Rosarinha.
Para a mineira, participar do filme foi um motivo de orgulho e também uma forma de revisitar lembranças de um passado difícil e injusto.
“Cada vez que eu volto lá, naquele lugar, eu não vou na casa dos meus ex-patrões. Eu não tenho mágoa, não tenho nada, mas não acho que deveria ser daquele jeito. Às vezes eu falo que eu sou prepotente, sou orgulhosa, às vezes eu sou até ruim, não sei”.
Fonte: Agência Brasil – EBC
